Nota

Ao longo das primeiras 149 notas de prova, a Enoversa dispensou a atribuição de pontuações aos vinhos, uma vez que não pretendíamos subjugar-nos a uma lógica redutora que apenas valorizasse números e hierarquias.

No entanto, após quase três anos de provas, apercebemo-nos de que a atribuição de uma pontuação (conscientes, claro, da subjectividade de tal tarefa) poderia revelar-se um exigente exercício capaz de organizar as nossas preferências.

Como tal, as notas de prova seguirão, apoiadas graficamente, um percurso objectivo dos sentidos (visão – olfacto – paladar), mas terminarão com a atribuição de uma pontuação subjectiva (seguida de um V ou de um C, consoante o provador).

Seguiremos a seguinte escala:

  • Menos de 80 pts: vinhos de qualidade abaixo da média, pouco equilibrados, excessivos.
  • 80-85 pts: vinhos de qualidade média, bem feitos, mas que não deslumbram.
  • 86-90 pts: vinhos de qualidade acima da média, mas sem a complexidade e/ou profundidade da categoria seguinte.
  • 91-95 pts: vinhos de qualidade acima da média, complexos e profundos, mas que, por algum motivo, não são arrebatadores.
  • 96-100 pts: vinhos inesquecíveis, que nos fazem beber e continuar à procura de mais.

Além disso, apresentaremos informação relativa à fase de consumo do vinho:

  • crescente: se ainda tem potencial para evoluir.
  • ideal: se está numa fase perfeita de consumo.
  • decrescente: se já passou a sua melhor fase.

149. M.O.B. Lote 3 Tinto 2016*

Região: Dão, Portugal
Preço: 8€

Nota: Tal como o 2014, três senhores do Douro (Moreira, Olazabal e Borges), três vinhas do Dão, três castas (Touriga Nacional, Jaen, Alfrocheiro). Nariz de intensidade média, onde se destacam os frutos vermelhos, algum floral e especiaria. Na boca destaca-se a bela acidez que faz salivar e dá excelente frescura ao conjunto. Corpo e final médios. Muito boa relação qualidade-preço.

* invulgar relação qualidade-preço

Uncorked (2020), Prentice Penny

O interesse da Netflix em distribuir um filme como Uncorked, que narra a história de Elijah (Mamoudou Athie), um jovem que ambiciona ser Master Sommelier, e a consequente popularidade que o filme atingiu na plataforma de streaming nas primeiras semanas, são sinais claros da importância crescente do vinho na nossa sociedade.

Mais do que pensar na democratização do vinho, poderíamos pensar no fenómeno da sua glamourização, um pouco como tem acontecido com outras profissões relacionadas com a gastronomia, tais como chefs ou restaurateurs, cujos crescentes e incontáveis documentários, filmes ou séries de televisão, têm ajudado a elevá-los, por vezes, à condição de celebridades. O mundo do vinho ainda não chegou exactamente a esse patamar, mas a tendência é, sem dúvida, progressiva.

Ora, também o filme de Prentice Penny parece querer explorar esse lado mais glamouroso (e afrancesado) do vinho, ao contrapor a vida de Elijah enquanto trabalhador na churrasqueira de família às suas actividades vínicas, que incluem a presença em provas de vinhos (em ambientes muito distintos daqueles que experiencia no restaurante da família) e até uma ida a Paris (da qual resultam inúmeros e escusados clichés). Por outro lado, importa também referir que nem tudo é chique e, nesse sentido, há várias cenas que demonstram o lado mais sujo do estudo do vinho (como a caneca de casa que é usada como cuspideira).

Não me parece que Uncorked seja uma representação fiel da exigência, disciplina e abnegação a que os estudantes da prova de Master Sommelier se submetem voluntariamente (mesmo sabendo que a taxa de sucesso se situa entre os 3-8%). Nesse sentido, este filme é uma representação diluída daquilo que se verifica, por exemplo, no documentário Somm (2012) de Jason Wise. Mas também é verdade que Uncorked não pretende ser um documentário, mas um drama. E que, como tal, chegará a um público muito mais vasto, e que mesmo sem grandes conhecimentos ou interesse pelo mundo do vinho poderá desfrutar do filme despreocupadamente.

Em resumo, estamos na presença de uma introdução light ao universo do Court of Master Sommeliers. Mas que quiçá poderá transformar um nicho num fenómeno social mais abrangente. Talvez daqui a uns anos se comece finalmente a ouvir: “Mamá, papá, quero ser escanção”. Ai isso não, filho! Diz antes sommelier.